Renato Líberapor Renato Líbera, Diretor Comercial Cinergis
Publicado em 13, janeiro de 2020
Palavras-chave: Salmonella, Segurança alimentar, Aves de corte, Biosseguridade

O Brasil é o maior exportador e o segundo maior produtor de carne de frango do mundo, o que torna a avicultura brasileira uma das mais produtivas no cenário mundial. Isso implica em atender as exigências do mercado consumidor nos quesitos sanidade avícola e qualidade dos alimentos.

A segurança alimentar está cada vez mais na pauta das barreiras não tarifárias e constitui fator importante na sustentabilidade da empresa (KOTTWITZ et al., 2012). Neste contexto, a Salmonella spp. é comumente associada a alimentos de origem avícola e pode levar a surtos de infecção em humanos, o que faz com que seja monitorada mundialmente, sendo fator de suspensão ou continuidade de abastecimento em países que o Brasil mantém relações internacionais.

O controle de microrganismos patogênicos deve estar presente em todas as etapas da produção e industrialização de frangos e ovos nas empresas que desejam ter sucesso no mercado mundial avícola. A Salmonella spp. e outros microrganismos patogênicos desenvolveram diversos mecanismos no intuito de sobreviver e de se manter em ambientes adversos, dentre eles a capacidade de aderir em superfícies e produzir biofilmes. (STEENACKERS et al., 2012).

Sabendo que as principais vias de contaminação são através da aquisição de aves já contaminadas, alimentação e ambiente, precisamos nos atentar as formas de prevenção. Dentre estes métodos gostaria de enumerar alguns:

  1. Aquisição de material genético livre de Salmonella spp. Medidas de biossegurança que visem a prevenção da contaminação do material genético, como o estabelecimento de critérios rigorosos de entradas de veículos, pessoas e animais provenientes de outros criatórios.
  2. Água e ração ofertadas às aves precisam ter a qualidade monitorada. Para a prevenção da contaminação oral, podemos destacar o uso de produtos químicos à base de formaldeído ou ácidos orgânicos no tratamento de rações e ingredientes, tanto de origem vegetal ou animal (tabelas A e B). Nesse caso, a quantidade de produto, poder residual e local de aplicação são fatores determinantes para a eficiência do uso desses produtos. Isso tudo deve ser associado à condições sanitárias adequadas de produção e origem das matérias primas, bem como à biossegurança e rastreabilidade em veículos e instalações onde a ração é armazenada e distribuída. Outro processo que pode ser utilizado é o tratamento térmico associado ao uso de bactericidas com longo efeito residual fazendo com que o sistema receba um “flushing” contínuo.

O uso de aditivos probióticos com bactérias residentes e multicepas associados ou não a prebióticos, trata-se de uma ferramenta importante para evitar a multiplicação de Salmonella no intestino das aves. Mesmo com a ingestão de pequenas quantidades de Salmonella, é importante que a microbiota seja manipulada com bactérias residentes para que protejam a mucosa intestinal evitando a passagem de Salmonella ao organismo do animal e multiplicação no ceco.

  1. Para redução da contaminação no ambiente é importante levar em consideração que um dos maiores vetores é o besouro Alphitobius diaperinus, popularmente conhecido como “cascudinho”. Vários trabalhos relatam a relação entre o cascudinho e a presença de Salmonella na cama, isso devido à temperatura, níveis de umidade e disponibilidade de alimento encontrado no interior dos galpões, que favorecem sua multiplicação. Por isso é essencial que as granjas adotem medidas de controle desse inseto, principalmente estratégias que visam à redução da umidade das instalações e da cama.

A prevenção e controle da Salmonella spp. devem ser constantes em qualquer sistema de produção. Produzir aves seguindo as boas práticas de produção e bem nutridas é a base para o sucesso e viabilidade do negócio. Nos próximos artigos traremos mais informações e dicas para redução desse patógeno.

Tabelas:

A – Porcentagem de granjas com amostras positivas para Salmonella na cama com ou sem tratamento químico da ração.

Período de amostragem Tratamento químico da ração Número de granjas Porcentagem de granjas com amostras positivas para Salmonella na cama
1996 (Abr – Dez) Não 17 93,7
1997 (Jan – Dez) Sim 17 29,4
1998 (Jan – Dez) Sim 17 11,7
1999 (Jan – Dez) Sim 16 12,5
2000 (Jan – Dez) Sim 14 0

Fonte: Adaptado de Willians (2000)

 

B – Incidência de contaminação (%) de diferentes ingredientes presentes em rações

Ingrediente
(n = número de amostras)
Salmonella spp (%) Clostridium (%)
Farelo de trigo (n=85) 28,3 35,2
Cevada (n=123) 16,3 10,2
Milho (n=298) 1,1 1,2
Farelo de Soja (n=464) 10,8 5,3
Farelo de girassol (n=70) 10,9 13,3
Farinha de carne (n=109) 17,4 33,6
Farinha de peixe (n=61) 13,6 11,4

Fonte: Adaptado de Prió et al. (2001)

 

Referências Bibliográficas:

KOTTWITZ, L.B.M.; SCHEFFER, M.C.; COSTA, L.M.D.; LEÃO, J.A.; BACK, A.; RODRIGUES, D.P.; MAGNANI, M.; OLIVEIRA, T.C.R.M. Perfil de resistência a antimicrobianos, fagotipagem e caracterização molecular de cepas de Salmonella Enteritidis de origem avícola. Ciências Agrárias, Londrina, v.33, n.2, p.705-712, 2012

STEENACKERS, H. et al. Salmonella biofilms: An overview on occurrence, structure, regulation and eradication. Food Research International, v. 45, n. 2, p. 502-31, 2012.

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