Ednilson Fávaropor Ednilson Fávaro, Gerente de Produto Cinergis
Publicado em 13, abril de 2020
Palavras-chave: Salmonella, Programa de controle, Segurança alimentar, Peletização, Ração

Em nosso último artigo “A importância do gerenciamento e controle da qualidade das matérias-primas, falamos de forma sucinta sobre os níveis de contaminação das matérias-primas que geram impactos na contaminação do produto final, o que nos leva a buscar alternativas para resolver este problema. E, quase automaticamente, surge em nossa cabeça a ideia de que os processos térmicos são uma solução.

Partindo deste princípio e do fato de que a peletização é um forte aliado do fator nutricional, tudo nos leva a crer que se faz necessário investir em peletização.

Esta decisão é correta já que uma boa peletização, com a temperatura certa, além de melhorar o desempenho e os índices zootécnicos, faz com que a Salmonella spp. seja realmente controlada. Passam os anos e podemos perceber que a situação não tem mudado muito, apesar dos sistemas de condicionamento terem evoluído bastante desde 1995 quando Veldman publicou sua obra, demonstrando que ao trabalhar com temperaturas acima de 75ºC se obtém uma excelente atuação no controle da Salmonella spp. conforme tabela abaixo.

Temperatura (ºC) Nº de amostras Enterobactérias (log10 UFC/g) Salmonella spp. (presença)
<60 18 3,3 1
60-65 17 3,4 1
65-70 33 3 0
70-75 44 2,5 1
75-80 34 1,7 0
>80 24 1,1 0

Fonte: Adaptado de Veldman et al (1995).

Também é importante avaliarmos o tempo de condicionamento. Em nossos processos fabris o mais comum é encontrarmos tempos de condicionamento abaixo de 60 segundos, tempo em que a umidade não costuma ser muito maior que 13,8%, o que acaba prejudicando o controle da Salmonella spp, além, é claro, de comprometer a qualidade do pellet, fator que pode acarretar em diversos problemas que trataremos em outro momento.

Riemann (1996) demonstra de forma clara que a peletização é muito importante e tem ótima efetividade no controle da Salmonella spp., conforme tabela abaixo.

Temperatura (ºC) Tempo (segundos) Porcentagem de redução da contaminação sob diferentes níveis de umidade
5% umidade 10% umidade 15% umidade
71 20 68,22% 83,44% 90,06%
40 73,50% 86,35% 97,43%
80 83,57% 90,80% 99,70%
77 20 87,36% 92,36% 98,24%
40 80,93% 96,91% 98,91%
80 91,61% 93,49% 99,73%
82 20 76,92% 98,09% 99,80%
40 89,14% 99,02% 99,99%
80 91,62% 99,19% 99,98%

Fonte: Adaptado de Riemann (1996)

Mas cabe a nós uma análise mais aprofundada para uma pergunta simples: Se eu controlo a Salmonella spp. com a peletização e se minha umidade é sempre na faixa de 14% com uma temperatura de peletização de 80ºC e um tempo de retenção no condicionamento próximo de 60 segundos, eu teria automaticamente uma eliminação de aproximadamente 99,99% da Salmonella spp. Se isto é verdade, porque então eu continuo com níveis elevados de contaminação, principalmente à campo?

Local/Amostra Incidência (%)
Silo – Grãos de cereais 3
Silo – Sub-produtos 4
Silo – Farinhas de proteínas animais 67
Misturador – Ração 69
Condicionador da peletizadora – Ração 32
Prensa da peletizadora – Ração 4
Saiba mais
Resfriador da peletizadora – Ração 7
Silo de expedição – Ração peletizada 13
Caminhão – Ração peletizada 13
Silo da granja – Ração peletizada 19

Fonte: Adaptado de Shrimpton (1989).

Os dados nos mostram que a peletização tem a capacidade de reduzir os níveis de contaminação, porém não pode eliminá-la completamente. Além disso, os níveis de recontaminação crescem significativamente após a peletizadora, o que nos leva a concluir que algumas características do processo deixam portas abertas para o problema da contaminação. Citamos algumas situações abaixo:

1º – A peletizadora não consegue eliminar 100% da contaminação pois ela pode ocorrer em níveis elevados.

2º – O processo de peletização tem características que levam a permitir a passagem de produtos sem controle efetivo da contaminação, conforme podemos visualizar no gráfico abaixo que demostra o tempo de início de operação a cada Setup.

Gráfico: Curva de atingimento de temperatura e carga até a estabilização da máquina

Curva de atingimento de temperatura e carga até a estabilização da máquina

Fonte: Arquivo pessoal.

Neste caso, temos uma máquina de 45 t/h que trabalhou por aproximadamente 15 minutos fora da temperatura de controle, portanto produziu aproximadamente 8 a 10 (considerar a curva de incremento de carga) toneladas de ração possivelmente contaminadas, levando em conta o nível de contaminação das matérias-primas.

3º – O PCC (ponto crítico de controle) e único responsável pelo controle térmico da Salmonella spp. é a peletizadora e a partir daí, não há mais possibilidade de redução dos níveis de contaminação.

4º – A partir da peletização, as chances de recontaminação aumentam expressivamente levando em conta que a grande maioria das fábricas não tem separação de área suja /limpa e raramente existem sistemas de filtragem de ar, portanto a exposição ao ambiente e ar sujo eleva os riscos de recontaminação.

5º – Os vetores de proliferação e recontaminação se estendem desde o resfriamento até o silo da granja, tendo em vista que nenhum dos equipamentos, dentre eles, resfriadores, elevadores, silos de armazenagem, caminhões de transporte e silos de granja, passam por limpezas diárias ou semanais, portanto basta que ocorra uma falha em qualquer um dos pontos em qualquer momento, para que qualquer destes pontos se transforme em fonte de recontaminação para o alimento e, por consequência, de contaminação para o campo.

Dessa forma, concluímos que a peletização ou o tratamento térmico é eficiente quando se trabalha atendendo aos parâmetros de umidade, temperatura e tempo de condicionamento, porém, estes fatores sofrem interferências inerentes ao processo como os Setups, embuchamentos de peletizadora e paradas que ocorrem com frequência dentro do processo de produção de rações. Portanto são necessárias medidas que controlem o processo de forma segura.

A recirculação do produto fora de parâmetros dos ideais no tratamento térmico é uma alternativa, porém prejudica a produtividade, aumenta os custos, reduz a eficiência do processo e não evita recontaminação do produto final. Outra alternativa, esta sim, mais eficiente, envolve o tratamento químico da ração, porém necessita de cuidados, envolvendo a qualidade do produto a ser utilizado, a estabilidade e a forma de aplicação, garantindo que o produto esteja livre da contaminação até o consumo na granja. Traremos esse assunto nos próximos artigos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

RIEMANN H. Heat destruction of Salmonella in poultry feed. Effect of time, temperature and moisture. Avian Diseases 40, 72-77, 1996.

SHRIMPTON, D.H. The Salmonella problem of Britian. Milling Flour and Feed, 16 – 17, 1989.

VELDMAN, A. et al. A survey of the incidence of Salmonella species and Enterobacteriaceae in poultry feeds and feed components. Veterinary Record 136, 169 – 172, 1995.

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